29/04/2026

Antes tarde

que nunca. 

Mas a Ordem teve que vir do Alto. Mas só veio, depois de ter caído nas bocas-do-mundo. Como isso afectava a imagem impoluta do morcão, que ocupa a cadeira do Poder no Palacete de São Bento em Lisboa, a reacção foi célere, não tivesse havido badalo, que o 'business as usual' tinha continuado a medrar, sem que ninguém no terreno, tivesse dito alto e em bom som: 

- Isto não pode ser! 

- Não me pagam para eu dar cobertura a estas tarefas! 

- ... !

Da minha parte tenha a declarar que: o dinheiro que já dei para apoiar este site, está a ser bem empregue:

https://www.paginaum.pt/2026/04/29/venda-agressiva-de-cursos-ministerio-da-educacao-ordena-suspensao 

" Venda ‘agressiva’ de cursos: Ministério da Educação ordena suspensão de projectos pseudo-pedagógicos

Elisabete Tavares e Pedro Almeida Vieira


A Agência para a Gestão do Sistema Educativo (AGSE), tutelada pelo Ministério da Educação, enviou hoje uma circular urgente para as escolas de todo o país a ordenar a suspensão imediata de qualquer actividade associada à Associação Internacional Lusófona para a Educação (AILE), após ter concluído que não existe qualquer autorização para a sua actuação em contexto escolar com fins comerciais.

A decisão surge na sequência directa das investigações do PÁGINA UM que expuseram um esquema de recolha de dados e venda agressiva de cursos dentro de estabelecimentos de ensino públicos.

No documento, assinado pelo presidente da AGSE, Raúl Capaz Coelho, é inequívoco o desmentido da narrativa que vinha sendo usada pela própria AILE junto de direcções escolares, professores e encarregados de educação: não só a alegada entidade sem fins lucrativos — mas que usava recursos e meios da empresa Advance Station — é desconhecida da tutela, como nunca teve qualquer validação formal para operar nas escolas nos moldes em que o vinha fazendo.

A circular esclarece ainda que, embora determinados inquéritos tenham sido aprovados pela Direcção-Geral da Educação (DGE), tal autorização era estritamente limitada a fins de investigação e não abrangia qualquer contacto posterior com pais, muito menos com objectivos comerciais por via de uma empresa.

A decisão de travar de imediato estas actividades ocorre depois de o PÁGINA UM ter revelado, na passada sexta-feira, com base em testemunhos e documentação recolhida em várias escolas, que a AILE, que nem sequer possui estatutos públicos nem (aparentemente) número de identificação fiscal, funcionava como porta de entrada para estruturas empresariais ligadas à Advance Station, que utilizavam o espaço escolar aos fins-de-semana para captar clientes e vender cursos de formação sob forte pressão psicológica.

O inquérito da AILE que tem servido para levar pais a comprarem cursos da Act Academy sob pressão, em reuniões realizadas nas instalações de escolas públicas.

Como salientado pelo PÁGINA UM, o processo começava com a aplicação de questionários em sala de aula, apresentados como instrumentos pedagógicos ou científicos, que permitiam recolher dados pessoais de alunos e famílias.

A AILE apresentava-se sempre, conforme se observa em documentos de agrupamentos escolares, como uma entidade “sem fins lucrativos dedicada ao combate ao abandono e insucesso escolar”, que pretendia desenvolver um projecto educativo “devidamente autorizado e validado pelo Ministério da Educação/DGEstE, para implementação em contexto escolar”.

Posteriormente, os encarregados de educação eram convocados para sessões realizadas nas próprias escolas — muitas vezes ao fim-de-semana — onde eram abordados por representantes de entidades comerciais e incentivados a adquirir cursos online com custos mensais elevados, através de técnicas de marketing agressivo e decisões tomadas sob pressão.

Panfleto com venda de um curso apresentado aos pais que preencheram o inquérito da AILE distribuído nas escolas públicas.

A circular agora emitida pela AGSE, depois de uma solicitação expressa do ministro Fernando Alexandre, confirma a substância da investigação do PÁGINA UM, porque a aprovação inicial dos inquéritos terá sido revogada após se ter verificado que não estavam a cumprir os fins declarados. O Ministério da Educação — que até agora se mantivera em silêncio — terá agora ordenado também a intervenção da Inspecção-Geral da Educação e Ciência (IGEC).

Em todo o caso, existe agora uma orientação inequívoca para os directores escolares cessarem qualquer colaboração com a AILE até completo esclarecimento da situação. Aliás, o PÁGINA UM já apurara esta manhã que pelo menos um agrupamento escolar de Lisboa — o Gil Vicente — já se antecipara à orientação ministerial, comunicando à AILE a suspensão das actividades previstas após um questionário que se realizara na semana passada.

Esta decisão do Ministério da Educação acaba também por relembrar que cabe às direcções das escolas a responsabilidade directa pela utilização das instalações escolares por entidades externas, mas que esta não pode servir para promoção comercial nem para práticas que coloquem em causa a protecção de dados e os direitos dos alunos e das suas famílias.

Fernando Alexandre, ministro da Educação: reacção á investigação surge cinco dias depois da investigação do PÁGINA UM. Foto: D.R.

Este caso de elevada gravidade — são dezenas as reclamações no Portal da Queixa e no site da DECO, que se acumulam há anos, embora com maior frequência nos últimos meses — levanta questões mais profundas sobre o controlo de quem entra nas escolas públicas e sobre os mecanismos de validação de projectos apresentados como educativos.

Como ficou demonstrado, a AILE apresentava-se como uma associação sem fins lucrativos, que dizia estar “devidamente autorizada” pelo Ministério da Educação, e aparentemente esse argumento foi aceite por diversas escolas sem qualquer verificação e supervisão, facilitando a disseminação a nível nacional de práticas comerciais ilegais.

A aparência institucional sem verificação permitiu assim legitimar um modelo de actuação em que a AILE, uma entidade opaca — sem informação pública sobre órgãos sociais, contas ou actividade —, funcionava como intermediária de interesses comerciais de uma empresa (Advance Station).

O alegado presidente da AILE assume-se como sócio-fundador da Advance Station, que tem várias marcas ou empresas que foi usando e fundindo ao longo dos anos.

Aliás, o proprietário desta empresa, João Carlos Oliveira Dias, apresenta-se como alegado presidente da AILE. E alguns dos nomes que constavam em questionários da AILE como investigadores são, na realidade, funcionários da Advance Station.

A intervenção da AGSE, ainda que tardia, representa assim o primeiro reconhecimento oficial de que algo falhou no sistema de controlo nos espaços escolares. Resta agora perceber até que ponto essa falha foi apenas operacional — por ausência de fiscalização — ou estrutural, permitindo que ainda mais entidades externas utilizem a marca implícita do Estado para legitimar práticas incompatíveis com um sistema educativo decente.

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É isso que eu estou a fazer 😀 

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