30/06/2026

País da preguiça

Estive na Escócia em 1987, era Fevereiro.

O meu filho esteve lá agora. 

Conversamos sobre o que vimos e comparamos experiências.

Uma delas, a dele, não a minha, foi a condução do outro lado da estrada, a minha ficou-se por tentar entrar pela porta errada do táxi e olhar para o lado errado, antes de atravessar a passadeira.

Somos um país do sul da Europa, logo, somos aquilo que somos. Para quê cumprir, se somos diariamente insultados, chamados de parolos, por políticos, polícias, magistrados, … gente que alegremente viaja no que o carro dá de prego a fundo, e se por ventura (não o Chefe do Chega) um radar mafioso os apanhar, têm a costumeira desculpa que vão em serviço, com aquelas luzinhas azuis. Estão a trabalhar dizem eles, com um riso alarve nas nossas caras. Não veremos a nenhum destes mafiosos ser-lhes caçada a carta, pagarem caro o desrespeito das normas. Porque isso não são maneiras de tratar os nossos representantes, aqueles que elegemos para nos ph++++++.

Enquanto que, no Reino Unido as mortes por acidente rodoviário estão ao nível do que é normal no Norte da Europa, as nossas estão alegremente emparelhadas com as dos países do Leste Europeu.

Podemos por a culpa nos selvagens tugas, que saem de casa com a faca nos dentes e que se vingam da vida miserável que têm ao volante da carripana. Mas o copo meio-cheio, também está meio-vazio, enquanto que no Reino Unido se fazem estudos como este

 https://vivacitylabs.com/west-sussex-county-council-school-streets-using-vivacity/

cá, tá quieto!  que a coisa dá trabalho e depois, como sabem todos os que, andaram perto do Poder, os relatórios quando são encomendados, já têm as conclusões decididas por quem o encomendou. O mesmo é válido para os famosos concursos, que são desenhados, para escolher aquele que deve ser escolhido.

O Página Um, faz um excelente trabalho, como é este caso aqui

https://www.paginaum.pt/2026/06/30/pagina-um-mostra-o-que-se-passou-nos-hospitais-na-pior-onda-de-calor-deste-seculo

Afinal os dados existem.

Porque não são analisados?

Porque não se parem conclusões?

Porque não se tomam decisões, com base em dados e não em crenças?

A razão para mim é simples. Os PIORES de nós, são aqueles que os Carneiros de Panurgo alegremente elegem.

Valeram os três (3) anos de luta do Página Um para aceder aos dados.

Enquanto trabalharem assim, dou por bem empregue a minha contribuição.

Talvez, num futuro distante sejamos um País Normal.

29/06/2026

País 'kabuki'

este.

Ver aqui o termo 'kabuki'.

Vou utilizá-lo no sentido de 'bizarro'. Claro que tinha que haver portugueses envolvidos. 

Só temo que, nesta moda de pedinchar dinheiro, de querer ter mesa farta, sem trabalhar, tenhamos que indemnizar os japoneses, por lhes termos levado a espingarda, o pão-de-ló, a faca, o garfo, ... miseráveis 'colonialistas', 'escravizadores', ... 😁

Ao acaso e para me divertir:

https://www.cmjornal.pt/sociedade/detalhe/policia-maritima-trava-banhistas-por-causa-dos-guarda-sois-em-frente-a-espaco-concessionado

Já Camões tinha dito. 

"...

E aqueles, que por obras valerosas

Se vão da lei da morte libertando;

..." 

Será certamente o caso: 

https://www.cmjornal.pt/sociedade/detalhe/professora-que-ja-morreu-convocada-para-classificar-exame-de-fisico-quimica-a

cantam bem, mas não me alegram 

https://www.cmjornal.pt/economia/detalhe/fisco-controla-15-970-riscos-de-corrupcao-nos-seus-servicos

eu bem achava que eram papas e bolos para tolos 

https://www.paginaum.pt/2024/05/02/ser-socio-de-cristiano-ronaldo-e-estar-ao-pe-de-um-porto-seguro-para-branqueamento-de-capitais

Uns fardados, outros à paisana, pagamos a esta corja e pagamos caro, eles por sua vez, acham que é pouco e fazem de conta que trabalham. 

Entretanto:

https://folhanacional.pt/2026/06/29/portugal-nunca-teve-tantos-imigrantes-estrangeiros-ja-sao-14-da-populacao-e-pais-entra-no-top-10-da-ue/

chegamos ao fim da linha, o copo de cerveja também chegou ao fim e eu fecho a loja. 

 

 

24/06/2026

Mentirosos encartados

 acreditei que esta corja me disse a "verdade", assim, fui tirar as galochas do armário e tenho estado aqui com elas calçadas para sair à rua. 

Com tanta promessa de "ondas de calor", fiquei com a sensação de que o alcatrão iria derreter, as galochas dariam jeito para sair à rua e documentar o momento inolvidável para a posteridade, isento de 'royaties', como é meu apanágio.

https://folhanacional.pt/2026/06/24/mais-de-94-milhoes-enfrentam-hoje-temperaturas-acima-dos-35oc/ 

hoje é acima de 35º C, amanhã talvez acima de 30º C. 

Proxenetas do clima! 


 

Todos pagamos impostos e outras mentiras que nos contam

  Para verem as fotos, acessem o link.

https://www.paginaum.pt/2026/06/23/todos-pagamos-impostos-e-outras-mentiras-que-nos-contam 

Todos pagamos impostos e outras mentiras que nos contam

Luís Gomes

Actualmente ouvimos todos os dias uma expressão, nos telejornais, nos jornais, nas bocas dos comentadores que pululam nas televisões: “os nossos impostos”. Depois vem “o dinheiro dos portugueses”, “o esforço de todos”, “estamos todos no mesmo barco”.

Trata-se de um credo; como todo o bom credo, não admite questionamento – questionar é uma forma de heresia, uma afronta ao “bem comum”, ao “colectivo”, ao “interesse público”. Mas por baixo desta Novilíngua que faria corar o próprio Orwell de inveja existe uma mentira tão grande, tão bem instalada que já ninguém a consegue ver: a de que o Estado é uma entidade benevolente que nos serve, e que todos, igualmente, “contribuímos” para ela.

Comecemos pelo princípio: a premissa de que o Estado é uma instituição de “bem”, uma espécie de arcanjo fiscal descido à terra para nos proteger dos lobos do mercado, é não apenas errada mas é a mais perigosa das ficções políticas. O Estado não é uma pessoa de bem.

O Estado é, na sua essência histórica e funcional, o bandido que veio para ficar. Aqui reside a sua genialidade perversa: ao contrário dos verdadeiros bandidos – os que assaltam farmácias, os que arrombam carros, os que esticam facas em becos escuros – o bandido estatal percebeu, a certa altura da história da humanidade, que roubar e fugir é um modelo de negócio com rentabilidade limitada. Há o esforço da fuga, o risco da captura, a perecibilidade do saque.

O bandido estacionário, o que ficou, o que se instalou, o que construiu um castelo e disse “daqui não saio”, descobriu algo de sublime na sua crueldade: ficar e roubar para sempre é infinitamente mais lucrativo e muito menos cansativo.

Mas o bandido estacionário, esse génio do crime territorial, deparou-se cedo com um problema: os assaltados podem revoltar-se! Usar apenas o chicote e a espada funciona até certo ponto, mas tem custos elevados e gera instabilidade. A solução foi dupla. Primeiro, a religião de estado: os bandidos a cavalo que ficaram tornaram-se Deuses ou ungidos de Deus, a sua violência passou a ser sagrada, o seu saque passou a ser tributo, e resistir-lhes era não apenas ilegal mas impiedoso.

Segundo, os intelectuais de serviço: uma casta de escribas, filósofos e académicos sempre disponíveis para idolatrar o poder e justificá-lo com prosa floreada e argumentos de aparência racional. A propaganda, em suma – tão antiga quanto o próprio Estado, apenas inegáveis melhorias ao longo de séculos.

O refinamento foi gradual e admirável na sua sofisticação. Com o Iluminismo vieram os grandes teóricos do “contrato social” – Locke, Hobbes, Rousseau – que nos disseram que os homens, em algum momento nebuloso da pré-história, decidiram voluntariamente entregar parte da sua liberdade, propriedade e segurança ao bandido estacionário em troca de protecção.

É uma narrativa sedutora. Tem apenas um problema: ninguém assinou esse contrato. Não existe uma única assinatura. Nenhum de nós estava presente nessa reunião fundacional. A que juiz recorrer se uma das partes – a que tem o monopólio da força – não cumpre? Quais as cláusulas que o tornam nulo por incumprimento? Até hoje, séculos depois, estas perguntas elementares que deveriam ter sido colocadas a Locke e companhia continuam por responder, o que é extraordinário.

Imaginem um banco que vos apresenta um contrato de crédito habitação que ninguém nunca leu, que ninguém nunca assinou, e que vos diz que, por terem nascido em determinado território, estão automaticamente vinculados aos seus termos, para o resto das vossas vidas, sem direito a rescisão. Enfim, uma fraude. Com o Estado moderno, dizemos que é a democracia.

Foi exactamente com a democracia que as coisas ganharam uma camada de absurdo. No Antigo Regime, havia um número relativamente reduzido de bandidos estacionários – reis, nobres, clero – e o pote do saque era seu, transmissível por herança, administrado com algum cuidado porque era o património da família. Um rei que arruinasse completamente o reino empobreceria os seus filhos.

Havia uma lógica, por mais perversa que fosse. A soberania popular veio baralhar tudo: de repente, um exército de demagogos pode aceder ao pote, por períodos curtos de tempo, sem jamais serem os seus proprietários. O resultado é previsível para quem já alugou um carro sem seguro: roubar rápido, roubar muito, e deixar a factura para o próximo inquilino. A democracia representativa não domesticou o bandido estacionário. Apenas multiplicou o número de bandidos e encurtou o horizonte temporal do saque.

Mas o ponto mais delicioso de toda esta arquitectura de ficção chama-se “falhas de mercado” – a mais científica e respeitável das justificações para a perpetuação do esquema. Precisamos do Estado, dizem-nos os economistas de serviço, para nos fornecer “bens públicos” que o mercado não forneceria, para combater monopólios, para corrigir externalidades e assimetrias de informação.

É uma argumentação que tem a vantagem de soar muito bem em conferências e de ser totalmente impermeável ao ridículo óbvio que contém: o principal monopolista em qualquer sociedade moderna é o próprio Estado. O único agente que produz, distribui e consome sem competição, sem alternativa e com recurso à coerção física para financiar as suas actividades é precisamente aquele que nos é apresentado como o remédio para os monopólios. Na máfia, pelo menos, há gangues em concorrência. Há alguma rivalidade que, por mais violenta que seja, impõe alguma disciplina. O bandido estacionário moderno não tem essa limitação.

No que respeita às “assimetrias de informação” e às “externalidades” – como se a natureza humana pudesse ser aperfeiçoada e elevada à divindade por decreto, desde que sejam os burocratas a decretá-lo. Os mesmos humanos falhos, mesquinhos e movidos por interesses próprios que falham no mercado, quando entram num ministério, transformam-se milagrosamente em seres de racionalidade superior capazes de “optimizar o bem-estar colectivo”. É uma teologia laica com muito má teologia e ainda pior ciência.

Chegamos agora ao coração do que é, provavelmente, o maior e mais bem-sucedido truque de ilusionismo da história económica contemporânea em Portugal: a criação da ilusão de que “todos pagamos impostos”. É aqui que a Novilíngua atinge o seu zénite, aqui que Orwell se sentiria um amador, aqui que a propaganda se torna tão perfeita que os próprios parasitados a repetem com convicção. Coloquem a questão a um funcionário público. Coloquem-na a um pensionista. Ambos vos dirão, com toda a seriedade do mundo, que também pagam impostos. Na sua boa-fé, até acreditam no que dizem.

A mecânica do engodo é esta: o Estado paga ao funcionário público um salário bruto de, digamos, 1.500 euros. Retém-lhe, “em seu nome”, 300 euros de IRS e 165 euros de Segurança Social. O funcionário recebe 1.035 euros na conta. Na contabilidade do Estado, os 300 euros de IRS e os 165 euros de Segurança Social aparecem como receita fiscal – como “impostos pagos pelo funcionário”. Mas quem transferiu esses 465 euros? O Estado. De onde vieram? Do mesmo pote de onde saiu o salário. É o Estado a pagar impostos a si próprio, numa transacção que existe apenas no papel e que serve um único propósito: criar a narrativa de que o funcionário público “também contribui”, “também participa no esforço colectivo”, “também paga a sua parte”. É uma operação de cosmética contabilística tão óbvia que espanta que funcione – mas funciona magnificamente, porque as pessoas acreditam no que querem acreditar, especialmente quando o que acreditam as faz sentir participantes e não dependentes.

O mesmo se aplica ao pensionista que recebe 900 euros do Estado e “paga” 85 euros de IRS. Na sua cabeça – e quem pode culpá-lo, dado o sistema ter sido desenhado exactamente para isso – ele é um “contribuinte”. Ele paga. Ele participa. Na realidade, o Estado está a devolver-lhe parte do que lhe confiscou durante a sua vida activa, retendo uma fatia para si próprio no processo, e chamando a essa retenção “imposto pago pelo pensionista”. A receita e o custo aparecem simultaneamente nos livros do Estado, numa acrobacia contabilística que se tornasse norma numa empresa privada enviaria o director financeiro para Monsanto a pé. Mas no Estado é ciência orçamental.

O resultado prático desta arquitectura de ilusão é devastador para quem verdadeiramente paga. Porque há quem pague a sério. São poucos, são maltratados, e chamam-lhes “exploradores”. São os empresários do sector privado, os trabalhadores por conta própria, os profissionais liberais que olham para o seu extracto bancário e vêem saídas que nunca autorizaram directamente – mas que existem porque o seu empregador ou eles próprios transferiram para o Estado antes de algum dinheiro lhes chegar à mão.

Estes sim são os verdadeiros parasitados, os que financiam toda a construção – e que são punidos pela sua produtividade com taxas marginais efectivas que podem facilmente chegar aos 70% ou 80% do fruto do seu trabalho, entre IRS, Segurança Social, IVA, IRC, derramas, ISP, taxas, contribuições diversas e a criatividade tributária anual dos sucessivos governos. O trabalhador do sector privado é o único que, no fim da cadeia, vê o dinheiro a desaparecer para um pote que não controla, não audita e raramente beneficia proporcionalmente.

Depois, temos a retenção na fonte, essa obra-prima de engenharia fiscal. O empregador – que já paga, recorde-se, TSU patronal, férias, subsídios e todos os encargos directos – retém do salário do trabalhador “os seus impostos”. O trabalhador olha para o seu recibo de vencimento e vê ali uma coluna a dizer “retenção na fonte: 400 euros”. Mentalmente, aquele dinheiro pertence-lhe – é “seu”, foi “ganho por si”, e o Estado está simplesmente a guardá-lo temporariamente. No acerto anual de IRS, quando recebe de volta 200 euros, sente que recebeu um presente, quase um subsídio de férias de Natal do Estado português, que assim se mostra generoso e redistributivo. A realidade é que esse dinheiro nunca foi seu. Nunca esteve na sua conta. Foi retirado antes de lá chegar. A retenção na fonte é a mais elegante das técnicas de invisibilidade fiscal: o dinheiro desaparece antes de se materializar, e com ele desaparece também qualquer ressentimento que pudesse gerar no contribuinte. Ninguém sofre a perda do que nunca teve.

Na verdade, ninguém paga impostos no sentido em que a expressão é usada. Nenhum funcionário público, nenhum pensionista do Estado, nenhum beneficiário de subsídios, prestações ou salários públicos paga impostos líquidos – é, por definição, receptores líquidos do sistema. Os únicos que vêem as suas contas efectivamente debitadas, que têm de transferir dinheiro real de uma conta real para o cofre do Estado, são os empresários e os trabalhadores independentes do sector privado. Esses são os que carregam com o epíteto de “exploradores”, de privilegiados, de gente que “tem de dar a sua parte”. A linguagem é perfeitamente invertida, como num espelho convexo que distorce tudo em benefício do próprio espelho.

Por fim, e aqui chegamos ao pináculo da criatividade orwelliana, há os conceitos de “custo fiscal” e “despesa fiscal”. Quando o Estado não vos retira a totalidade do que considera ser “seu” – quando existe uma isenção de IRS para jovens, um benefício fiscal para empresas que investem em Investigação e Desenvolvimento, uma redução de taxa para um bem essencial – isso é chamado, com toda a solenidade, de “custo para o Estado”, de “despesa fiscal”, de “esforço do contribuinte colectivo”.

A implicação é clara e foi totalmente internalizada pela opinião pública: o rendimento que fica nos vossos bolsos é, na realidade, um subsídio que o Estado generosamente vos concede. O Estado tem um direito primário sobre o fruto do vosso trabalho. Quando não o confisca na íntegra, está a fazer-vos um favor, e esse favor tem um custo – o tal “custo fiscal”. É como se um ladrão vos roubasse uma carteira com 250 euros, ficasse com 150, vos devolvesse 100, e tivesse a desfaçatez de dizer que aqueles 100 euros representavam para “um esforço significativo”, “um custo não negligenciável”, “uma despesa que compromete o equilíbrio orçamental do assalto”. Toda a gente à volta assentisse gravemente e concordasse que sim, de facto, o ladrão fizera um sacrifício considerável.

Se Orwell hoje lesse um qualquer relatório do Conselho das Finanças Públicas, qualquer declaração ministerial sobre “o esforço dos contribuintes”, qualquer notícia sobre “o custo fiscal das deduções à colecta”, chegaria a uma única conclusão: o seu 1984 foi ingenuamente optimista.

A Novilíngua que imaginou era ainda demasiado crua, demasiado óbvia. A verdadeira Novilíngua fiscal portuguesa é muito mais sofisticada – porque foi construída não pela força bruta de um partido único, mas pela acumulação sedimentar de décadas de democracia, de burocracia, de corporativismo e de uma classe política que descobriu que manter os parasitados convictos de que também são parasitas é, de longe, o melhor seguro de vida que algum bandido estacionário alguma vez inventou.

Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

18/06/2026

O país do salário único e dos parasitas satisfeitos

 Para verem as fotos, acessem o link.

https://www.paginaum.pt/2026/06/11/o-pais-do-salario-unico-e-dos-parasitas-satisfeitos 

 O país do salário único e dos parasitas satisfeitos

Luís Gomes


O Banco de Portugal descobriu que os salários em Portugal estão a “comprimir-se”. O salário mínimo vale já 91% do salário mediano – o rácio mais elevado de toda a zona euro –, e o Banco Central alerta, com a cautela de quem não quer ofender ninguém, para as “questões importantes” que isto levanta “relativamente aos incentivos dos trabalhadores e à dinâmica da produtividade da economia”.

No dia seguinte, o director do ECO, António Costa, escreveu um editorial intitulado “O País do Salário Único”, onde chora lágrimas de crocodilo sobre esta compressão, diagnostica com competência os sintomas, e termina com a prescrição habitual: mais investimento, mais concorrência, empresas mais capitalizadas, menor carga fiscal. Acertado, mas completamente desonesto, não por mentira declarada, mas pela omissão meticulosa das causas que produziram exactamente o que ambos lamentam.

Comecemos pelo princípio, que é onde a inteligência se distingue da retórica. O contrato de trabalho não é, como a mitologia sindical e os partidos socialistas do sistema insistem em proclamar, uma relação de exploração entre o capital e o trabalho.

É uma troca intertemporal. O trabalhador tem preferência temporal elevada – quer consumir hoje. O capitalista tem preferência temporal baixa – adiou o consumo, acumulou poupanças, e está disposto a adiantar poder de compra presente ao trabalhador em troca dos bens futuros que este produzirá. O lucro do capitalista não é o produto de nenhuma espoliação; é o juro implícito nessa diferença de preferência temporal, e o prémio pelo risco de que os bens futuros valham menos do que antecipou.

O jornalismo independente (só) depende dos leitores.

Não dependemos de grupos económicos nem do Estado. Não fazemos fretes. Fazemos jornalismo para os leitores, mas só sobreviveremos com o seu apoio financeiro.

Neste quadro, não existe conflito estrutural entre trabalhador e capitalista. O trabalhador sem acesso às poupanças do capitalista seria forçado a esperar pela sua própria produção para consumir – empobrecendo radicalmente. O capitalista sem trabalhador tem poupanças inertes. A troca é mutuamente benéfica. O que pode correr mal não é a troca em si, mas a interferência de terceiros nas suas condições – e é aqui que o Estado português entra em cena.

Em Portugal, o capitalista que contrata um trabalhador não está apenas a celebrar uma troca voluntária. Está a comprometer as suas poupanças numa obrigação de duração potencialmente perpétua, porque o despedimento é constitucionalmente proibido sem justa causa – e a justa causa exige um processo de instrução tão elaborado, tão lento e tão incerto nos seus resultados que a maioria dos empregadores desiste antes de começar.

A Constituição da República Portuguesa, no seu artigo 53.º, “garante” aos trabalhadores “a segurança no emprego”, transformando o que devia ser um contrato reversível numa servidão mútua com apenas uma saída dignificada: o mútuo acordo, que o trabalhador racional recusa enquanto houver perspectiva de continuar a receber. O capitalista está, portanto, a apostar as suas poupanças num activo que não consegue alienar se a aposta correr mal. O que fazem os agentes racionais quando confrontados com um activo ilíquido e de risco elevado? Oferecem menos por ele. Muito menos.

O resultado é tão previsível que assombra que o Banco de Portugal e o ECO finjam surpresa. As empresas portuguesas pagam salários mais baixos do que pagariam num mercado livre, não por avareza ou por qualquer propensão cultural para a mesquinhez, mas porque o risco de contratar é extraordinariamente elevado.

Compensam a diferença com ajudas de custo isentas de contribuições, com quilómetros, com carros da empresa, com seguros de saúde, com despesas de representação – toda a panóplia de remuneração paralela que não aparece nas estatísticas do Eurostat e que torna o Índice de Kaitz de 91% ainda mais distorcido do que parece, porque parte substancial da remuneração real dos decis superiores vive fora dos registos que o Banco de Portugal analisa com tanta seriedade. O Banco Central estuda os dados que o sistema produz; não estuda os dados que o sistema oculta.

Não é só o despedimento. A segurança social portuguesa, um imposto inconstitucional que ninguém fala, não tem tecto contributivo – é uma singularidade que Portugal partilha com muito poucos países da União Europeia, e que torna o custo efectivo do trabalho qualificado absolutamente proibitivo. Sobre cada euro de salário acima do mínimo, a entidade patronal paga 23,75% de contribuição social, e o trabalhador paga 11%, num total de 34,75% que incide sobre a totalidade do salário sem limite máximo.

Um engenheiro com 4.000 euros mensais custa ao empregador cerca de 4.950 euros, e recebe líquido pouco mais de 2.700. A diferença – 2.250 euros por mês, 27.000 euros por ano – vai para o Estado, que a redistribui segundo critérios que têm muito pouco a ver com a produtividade de quem a gerou. É neste contexto que o ECO e o Banco de Portugal lamentam a falta de diferenciação salarial e a ausência de incentivos à progressão. A pergunta que nenhum deles faz é: incentivos para quê, exactamente, quando o Estado é o maior sócio de qualquer relação laboral, sem ter posto um cêntimo no negócio e sem correr qualquer risco?

A compressão salarial não é, como António Costa gentilmente insinua, uma falha de mercado ou uma patologia da negociação colectiva. É a consequência directa e previsível de um conjunto de políticas públicas que tornam o trabalho qualificado caro, o despedimento impossível, e a acumulação de capital um empreendimento de elevado risco com retorno incerto.

Quando o Estado sobe o salário mínimo de forma agressiva e contínua – como fez na última década –, não está a elevar o rendimento dos trabalhadores mais pobres de forma sustentável. Está a comprimir a estrutura salarial a partir de baixo, forçando as empresas a afectar uma fatia crescente da sua massa salarial ao piso legal, em detrimento dos salários intermédios e superiores. Os trabalhadores dos decis mais baixos cresceram 8% em 2025; os dos decis mais altos cresceram 5%. O BdP regista isto como facto. Nenhum dos dois artigos em análise tem a coragem de perguntar quem decidiu que assim seria, e com que consequências.

A resposta exige Mancur Olson, que é o economista que o debate público português mais evita, provavelmente porque as suas conclusões são igualmente incómodas. Em “The Logic of Collective Action”, Olson demonstra que grupos pequenos com interesses concentrados organizam-se com uma facilidade que grupos grandes com interesses difusos nunca conseguem igualar. Os sindicatos portugueses representam, na sua maioria, trabalhadores com vínculo permanente em sectores sindicalizados – uma minoria do mercado de trabalho, fortemente concentrada no sector público e em grandes empresas. Mas têm poder de mobilização visível e uma retórica que apropria a palavra “trabalhadores” para designar exclusivamente o seu subconjunto.

Os verdadeiros perdedores da rigidez laboral – os jovens à procura do primeiro emprego, os trabalhadores a recibos verdes, os desempregados de longa duração, os imigrantes sem rede – não têm organização proporcional ao seu número, não têm retórica, e raramente têm voto. A legislação laboral portuguesa é, na sua essência, uma transferência de rendimento dos trabalhadores precários para os trabalhadores com vínculo permanente, executada pelo Estado com o consentimento entusiasmado dos sindicatos e apresentada ao público como conquista social universal. É uma das maiores fraudes do actual regime.

Em The Rise and Decline of Nations, Olson vai mais longe e demonstra que sociedades estáveis acumulam ao longo do tempo coligações distributivas – grupos de interesse que usam o Estado não para criar riqueza, mas para redistribuir a riqueza extorquida aos pagadores líquidos de impostos a seu favor. Portugal cabe neste modelo com uma precisão que dispensaria qualquer elaboração adicional.

Décadas de “democracia estável” produziram um acumular de coligações: sindicatos que protegem os seus, ordens profissionais que limitam a concorrência, empresas com acesso privilegiado a contratos públicos e fundos europeus, autarquias que funcionam como máquinas de emprego clientelar, e toda a infra-estrutura associativa e política que sobrevive da transferência fiscal. O resultado é exactamente o que Olson previu: crescimento lento, rigidez estrutural, incapacidade de adaptação, e um Estado que cresce continuamente como árbitro e distribuidor de rendas.

O Estado moderno não nasceu de nenhum contrato social voluntário. Nasceu de uma conquista, e a legitimidade veio depois, como narrativa de justificação. O bandido errante saqueia e passa; o bandido estacionário percebe que é mais rentável criar condições para as vítimas produzirem o máximo possível, para poder extrair o máximo possível de forma sustentada. Por isso cria ordem, direitos de propriedade, protecção – não por virtude, mas por interesse próprio de longo prazo.

A genialidade do Estado moderno é ter substituído esta narrativa crua por outra muito mais sofisticada: a “protecção dos fracos”, a “justiça social”, a “redistribuição benevolente”. Esta narrativa é irrefutável na superfície – quem se opõe a proteger os fracos é imediatamente suspeito de crueldade. Mas é precisamente esta irrefutabilidade que a torna tão eficaz como forma de exercício do poder, e tão perigosa para quem a toma a sério.

Portugal construiu, sobre esta narrativa, uma sociedade dual. De um lado, os receptores líquidos de impostos: funcionários públicos com vínculos inamovíveis, reformados com pensões que o sistema não financia actuarialmente, beneficiários de transferências sociais, empresas com acesso privilegiado ao pote do saque, e toda a estrutura política, sindical e associativa que vive da transferência fiscal. Do outro lado, os pagadores líquidos: empresas privadas expostas à concorrência, trabalhadores do sector privado sem vínculo, profissionais liberais, e os emigrantes – que partiram porque o sistema os expulsou, e cujas remessas continuam a financiar o sistema que os expulsou. Esta dualidade é estável não por acidente: os receptores têm incentivo enorme a votar, a organizar-se e a pressionar; os pagadores têm incentivo a sair, e saem.

O António Costa do ECO escreve que “a resposta não passa por travar a valorização do salário mínimo, passa por criar condições para que os restantes salários cresçam também. Mais investimento, mais concorrência, empresas mais capitalizadas, maior capacidade de inovação e uma carga fiscal menos penalizadora para quem trabalha e para quem cria emprego.”

Cada palavra desta frase é correcta. Cada palavra exige, para ser implementada, desfazer exactamente o que as coligações distributivas que definem o presente regime ao longo de décadas. Reduzir a carga fiscal implica reduzir o Estado. Reduzir o Estado implica reduzir os receptores líquidos de impostos. Reduzir os receptores líquidos implica desmantelar as coligações que elegem os governos. O que o editorial não diz – e não pode dizer, porque o ECO tem anunciantes e o director tem relações – é que a receita correcta é politicamente suicida dentro do sistema que produziu o problema.

O Banco de Portugal, por seu lado, alerta para a compressão com a linguagem asséptica de quem descreve um fenómeno meteorológico. A compressão salarial levanta “questões importantes”. Os incentivos “podem” enfraquecer. A produtividade “pode” ser afectada. Este condicional prudente é o idioma de uma instituição que depende do Estado que analisa, e que por isso nunca nomeia directamente o que todos os dados implicam: que o mercado de trabalho português é uma ficção regulada, onde os preços são fixados administrativamente, os contratos são unilateralmente irrescindíveis, e a remuneração real é parcialmente ocultada para escapar a uma tributação confiscatória. Não é um mercado. É uma economia planificada.

A questão que fica, depois de lidos os dois artigos com a atenção que merecem, não é técnica. É moral. Durante quanto tempo pode uma sociedade sustentar a ficção de que protege os trabalhadores, quando o que protege é uma casta de trabalhadores à custa de todos os outros? Durante quanto tempo pode um Banco Central produzir análises sobre sintomas sem nomear as causas? Durante quanto tempo pode um jornalismo económico lamentar os resultados de políticas que nunca questionou quando foram adoptadas? O Índice de Kaitz de 91% não é uma tragédia que chegou de fora. É o produto exacto e previsível de escolhas deliberadas, tomadas com o aplauso entusiasmado de quem hoje derrama lágrimas sobre os seus efeitos.

Portugal exporta os seus melhores engenheiros, os seus médicos, os seus cientistas – os pagadores líquidos do futuro –, enquanto importa miseráveis analfabetos do terceiro mundo. Ao final de mais de 50 anos de regime socialista, onde as narrativas sobre “salário mínimo e justiça social” imperam, o futuro é negro, pois os parasitas continuam a estrangular o hospedeiro, sem misericórdia.

Luís Gomes é gestor (Faculdade de Economia de Coimbra) e empresário

13/06/2026

preto & branco

 chapa de carro preto ao Sol

  "DSCN1060" by _morgado is licensed under CC BY 4.0

chapa de carro branco ao Sol

"DSCN1062" by _morgado is licensed under CC BY 4.0

 

04/06/2026

Emprenhar

acontece de várias maneiras, neste caso, vamos emprenhar com a palavra escrita, em tom de Dogma da Igreja dos Últimos Dias do Planeta.

Devem andar por aqui os meteorologistas da economia, com as suas profecias sobre o crescimento da economia para o próximo trimestre.

Uivem de dor, aqueles que são de uivar pelas dores do planeta.  

https://folhanacional.pt/2026/06/04/a-terra-entra-em-sobrecarga-ecologica-a-30-de-julho/ 

Mas uivem só com as cólicas do planeta, não se atrevam a uivar com a carga fiscal que, continua alegremente a viver acima das nossas possibilidades, até ao dia em que, a tampa salta e se entorna o caldo.

https://www.jornaldenegocios.pt/economia/financas-publicas/detalhe/carga-fiscal-aumentou-para-357-do-pib-em-2024