tem medo.
https://www.paginaum.pt/2026/05/12/escolas-foram-isco-para-burla
‘Escolas foram isco para burla’, diz presidente da associação de directores escolares
Depois da polémica em torno do caso dos influenciadores que andaram a falar a alunos em escolas públicas, a Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP) enfrenta um outro caso ainda mais grave e complexo: o da alegada burla ocorrida dentro dos estabelecimentos escolares, que deixou um rasto de famílias lesadas em todo o país.
O Ministério da Educação já revogou a autorização dada a uma associação que serviu de “fachada” para a empresa de formação Advance Station (ex-Joviform) enganar pais de alunos. Mas a ANDAEP decidiu avançar com medidas, perante o risco de as direcções escolares poderem vir a ser responsabilizadas por terem permitido a entrada da empresa nas escolas.
“Esta empresa tem usado as escolas como isco”, disse Filinto Lima, presidente da ANDAEP, em declarações ao PÁGINA UM. “Estamos preocupados com o tema”, frisou. ↓
A preocupação prende-se não só com o facto de as escolas terem sido usadas num esquema que enganou famílias, mas também com a possibilidade de poderem vir a ser atribuídas responsabilidades aos directores escolares, que permitiram a entrada da empresa nas instalações da escola em dias do fim-de-semana, para ter “reuniões” onde burlavam os pais dos alunos.
“Sentimos a obrigação de agir. O que vamos fazer de imediato é reforçar a mensagem, junto dos 811 directores dos agrupamentos e escolas, de que a utilização dos espaços públicos não pode servir para legitimar uma prática abusiva”, disse Filinto Lima. “Vamos fazer um comunicado para reforçar o que foi comunicado pela tutela”, indicou.

Na sequência da investigação do PÁGINA UM, que denunciou o caso, o Ministério da Educação adoptou medidas. Uma delas foi enviar um comunicado a todas as escolas com “orientações” no qual também informava que tinha revogado a autorização concedida à associação usada como “fachada” para a burla, a AILE-Associação Internacional Lusófona para a Educação — que usa o NIF de outra entidade e cujo “presidente” é o sócio principal da empresa Advance Station. O Ministério da Educação também ordenou uma intervenção por parte da Inspecção-Geral da Educação e Ciência (IGEC).
O caso da utilização das escolas para fins não educativos está na ordem do dia, designadamente pela polémica da presença de influenciadores nas escolas, que foi denunciada pelo jornal Público. O Ministro da Educação, Fernando Alexandre, criou um Grupo de Trabalho para analisar e proibir actividades contrárias aos fins educativos.
Contudo, estas medidas não servem de consolo às muitas famílias lesadas pela burla da Advance Station. Entre as vítimas, há famílias mais vulneráveis, incluindo imigrantes, com poucos conhecimentos da língua portuguesa, e outras, com escassos meios económicos.

A DECO-Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor recebeu dezenas de queixas num só mês e está a prestar a apoio para ajudar encarregados de educação a anularem os contratos com a Advance Station — que envolvem o pagamento de mais de 130 euros mensais durante 36 meses.
O caso poderá chegar às mãos do Ministério Público, que já em 2016 acusou a empresa (então Joviform) por práticas ilegais. A empresa foi condenada na primeira e segunda instâncias por ter cláusulas ilegais nos contratos.
De resto, as queixas sobre a empresa já são antigas, mas consegue ciclicamente enganar famílias de alunos das escolas públicas com recurso a diferentes “truques” e diferentes marcas. Actualmente, usa a marca Act Academy mas já usou outras como Skills Gym e Instituto Unicenter. A empresa nunca responde às queixas e denúncias e, até ao momento, todos os contactos com a AILE e com a empresa, encetados pelo PÁGINA UM e também pela DECO, têm ficado sem resposta.

O que se sabe é que, apesar das medidas do Ministério da Educação, a empresa não parou de tentar enganar pais de alunos de escolas públicas. O PÁGINA UM confirmou hoje que a Advance Station contactou pais de alunos da Escola EB 2/3 de António Feijo, de Ponte Lima, e conseguiu atrair alguns para reuniões que se realizaram no passado Sábado, dia 9 de Maio.
O director daquele agrupamento de escolas, João Gonçalves, confirmou ao PÁGINA UM que teve conhecimento da realização das reuniões, mas garantiu que “não se realizaram dentro das instalações das escolas” do agrupamento. “Parece que as reuniões foram num centro de explicações, no centro da vila. Espero que não tenham ido muitos pais”, disse ao PÁGINA UM. “A AILE esteve aqui no início do ano a fazer inquéritos, mas nunca mais voltou nem deu os resultados dos inquéritos”, adiantou
Mas, apesar de não ter voltado ao agrupamento, os contactos obtidos pela AILE nos supostos “inquéritos” que fez no agrupamento foram agora usados, não para fins pedagógicos ou de investigação, mas para vender “cursos” de forma enganosa e agressiva aos pais dos alunos daquela escola de Ponte de Lima.

Assim, até que as autoridades competentes resolvam actuar, potencialmente inibindo as práticas da Advance Station, como a lei permite, mais famílias serão lesadas nesta burla que agora prossegue bem perto do lado de fora dos muros das escolas públicas, mas usando os dados obtidos lá dentro, nas salas de aula.
Por enquanto, resta esperar pelo resultado da investigação da IGEC e a eventual intervenção da ASAE- Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, da Direcção-Geral do Consumidor, da Comissão Nacional de Protecção de Dados ou mesmo do Ministério Público. Até lá, os dados de milhares de encarregados de educação de alunos de escolas públicas mantêm-se nas mãos da Advance Station e dos seus vendedores de “cursos online”.
Pode acompanhar o tema da burla nas escolas neste link.
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