27/11/2025

Peregrinação V

3ª feira – 18 de Novembro de 2025

Acordo com o ‘despertador’. 
Continuo a usar o velho telefone de teclas para esta função. Estou habituado a estes sons, outros sons sou capaz de os ignorar como aviso de acordar, isto apesar de ser sensível aos ruídos por mais pequenos que sejam e que por vezes, me acordam durante a noite.

Banho tomado. Vou arrumando as coisas na mala, mais uma vez percorro os espaços usando o método japonês de apontar o dedo e olhar no ponto para onde aponta. Parece ridículo? Talvez! Como ocidentais somos arrogantes, ou é como nós fazemos, ou os outros são meros bárbaros. Verifico assim mais uma vez que não vou-me esquecer de nada.


Faço o ‘check out’, pago a taxa turística com que o governo e as autarquias esmifram turistas, sejam eles nacionais ou estrangeiros, esmifram por igual, 3€ no Porto e 4€ em Lisboa por noite pernoitada, a diferença de valor aqui, tem que ver com o apetite de cada “autarca”. As aspas são, porque no grego “autárkes” é aquele, «que se basta a si mesmo». Eu a mexer na bolsa dos outros, também era Autarca. Abandono o nº 25 da Praça da Liberdade.

Vou ao pequeno café comer uma tosta mista, um sumo de pêra e acabo a beber café, normalmente só o faço já depois do almoço, mas o viajar altera as rotinas.
 
Acabo a falar com a dona sobre algumas desditas dela, estava vestida de preto, não por moda, mas porque o pai tinha falecido. Jovem, simpática, bonita, com um ar de minhota, não por nascença, nasceu no Porto, mas por herança genética. Conversamos sobre seguros, as dificuldades que teve em trasladar o pai que faleceu no Sul de Espanha, apesar de ter seguro, a companhia foi protelando, pedindo que ela avançasse com as despesas, entretanto era preciso mais um papel, depois outro. A habitual via-sacra que todos vivem,  quando passada a hora de todas a facilidades na assinatura do contrato, as promessas são postas à prova. O corpo do defunto, esse aguardava que o dinheiro aparecesse. É muito lindo viajar para a estranja, poder dizer eu estive lá e tu? Mas, há o Diabo, e esse vive naquelas coisas chatas que só gente chata pensa nelas. Na hora de pagar e sair, perguntei-lhe se era casada. 
Sou! 
Disse-lhe: espero que tenha escolhido bem!
Será uma pena, se se enganou.

Chego cedo a Campanhã, o intercidades é só às 10:44 Vou deambulando por aqui. Passo algum tempo na loja da mbooks, é uma loja com muita mais área do que as das estações do metro e de Santa Apolónia em Lisboa. 
Compro dois livros, coisas antigas, 5€ cada, um sobre Santiago Carrilho, comunista espanhol, o outro sobre Sita Valles, uma comunista, vítima do comunismo à angolana, nada de novo, o fuzilamento sempre foi e será, o método dialéctico preferido dos comunistas. 
Estas páginas negras, que outras ideologias também têm, não interessam nada, aos que julgando-se de esquerda, acham-se superiores eticamente. Recebi na hora de pagar um marcador de leitura, nunca o recebi em Lisboa. 

O comboio acaba por chegar. Iniciada a viagem, sento-me no lado esquerdo da carruagem, que nesta carruagem são os lugares individuais. A meias, só nos pés. 

A paisagem vai desfilando rapidamente, já num registo de memória difusa, que como todas as memórias, mistura o real com o imaginário, cores pasteis, recordações vivas, outras esbatidas, …
 



À chegada ao Entroncamento tenho cerca de 10 minutos de atraso, para descontar na 1 hora e 23 minutos para a próxima ligação. Não posso perder tempo, dirijo-me ao 'Cascata de Ingredientes', o restaurante mais perto da estação e com melhor aspecto. Já comi aqui num outro, mas é mais longe. Pergunto qual o prato mais rápido e entre os enumerados, escolho o bacalhau com espinafres e broa gratinado. Muitas são as garrafas de exposição, mas opto pelo jarro de 0,25L branco. Não esperei muito tempo. Peço sobremesa, café e conta, tudo junto. 

Olho para a conta e digo à empregada para me trazer 5€ de troco. Paguei com uma nota de 20€ e com gorjeta, pago o mesmo que paguei pelo copo de branco do Tapada do Chaves. 👍


Sobra-me ainda tempo, caminho sem pressa para a estação, antes assim, que vir a correr.

O resto da viagem é rotineira e decorre numa carruagem quase vazia, o que não me impede que me irrite. Um velho vai entretido a ver vídeos no télélé, azar o meu, são vídeos zucas, ainda por cima rascas. Podia usar uns auriculares, mas não usa, dá bosta para quem está por perto. Viajo com os auriculares sempre colocados e tenho que aumentar o som, para cancelar o ruído. Ruído é tudo aquilo que nos chega aos ouvidos e que não desejamos receber. 

Chego com um ligeiro atraso ao destino, típico das linhas de via única, em que os comboios têm que esperar em algum lado, para se cruzarem. Saio da carruagem e é o choque habitual. O tempo é sempre outro, seja quente ou seja frio, a humidade essa é quase sempre pouca, o ar cheira diferente aqui. 

O corpo está de volta, o pensamento esse ficou lá longe.
 
 
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the end 
 
 fotos e vídeos: _morgado - under licence: Creative Commons Attribution 4.0 International (CC-BY-4.0)
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