26/11/2025

Peregrinação IV

Segunda-feira, 17 de Novembro de 2025.

No local onde residem os Deuses e as Deusas, no Olimpo, a vida não é muito diferente da que os terráqueos aqui vivem. 

Hoje é segunda-feira e as Deusas, Musas e Ninfas têm que se levantar cedo para irem trabalhar. Ninguém gosta de dar tiros nos próprios pés, além de doloroso é incoerente. Assim a Ninfa hoje descruzou os dedos com que passou o fim-de-semana a fazer figas, para que o mau-tempo me fustigasse. Tem que ir trabalhar, as ninfas também têm que trabucar para terem que manducar. Não se queria molhar. Agradeço-lhe a mudança de humor e desculpo-A pela maldade praticada contra este pequeno ser, indefeso perante a omnipotência dos Deuses. Obrigado!

Levanto-me cedo e vou tomar o pequeno-almoço ao café, a casa é pequena, mas está bem situada. Aproveito para analisar o ambiente no Porto à saída de uma estação de comboios e de metro, comparo-o com as minhas referências em Lisboa. O Porto como cidade mais pequena e com menos gente, fica a ganhar. A ‘pronúncia do Norte’ é uma música que não oiço normalmente e que aqui me sabe bem ouvir.

Faço um parêntesis aqui, para comparar valores. 
A área metropolitana de Lisboa tem uma área de 3001Km2, uma população de 2.870.208 habitantes e uma densidade populacional de 956,4 habitantes/Km2.
A área metropolitana do Porto tem uma área de 2040 Km2, uma população de 1.737.395 habitantes e uma densidade populacional de 844 habitantes/Km2.

Vou só referir uma especificidade local, talvez em vias de extinção como tantas outras coisas. A minha irmã que vem com alguma frequência ao Porto, porque gosta dele, um dia disse-me que só aqui as empregadas nas lojas a tratavam por: - menina. Não se espera essa ternura de uma empregada em Lisboa. Vendedoras de feira? Engraxadela para vender? Que o seja. Agora é um amasso que sabe bem ao ego. 
A talhe de foice, recordo o dia em que a minha ex-mulher chega a casa chocada. Chocada porque ao entrar para o autocarro, aquilo era uma perfeita anarquia, já que nem sempre os autocarros paravam no mesmo sítio e o sítio não se prestava a organizar uma bicha, bicha sim, no tempo em que eu fazia as  palavras cruzadas no jornal, fila, era uma enfiada. Estamos conversados, ou continuo? Dizia eu que chegou a casa chocada, porque os putos da escola disseram: - deixa passar a senhora. Há sempre um dia!

Rumo ao Palácio da Bolsa. Embarco num grupo de estrangeiros e sou o único indígena nele. Ao entrar, foi-me proposta uma visita para um pouco mais tarde em português. Esta que irá ocorrer agora às 09:20 é em inglês, dispenso a opção, o meu objectivo é ver e fotografar. 

Não faz sentido para mim compartilhar uma visita em que as explicações me são dadas em português e pela certa serei o único, e obrigar os ‘camones’ a ouvirem a língua de Gil Vicente ou Camões e acharem que se calhar, é italiano, como me aconteceu na visita às caves da Cálem. Eu troquei umas palavras com o guia da visita sobre os vinhos em português. Como não ia comer os frutos secos todos, que a opção de vinhos escolhida me fornecia, ofereci ao casal que estava à minha frente na mesa, o pires para comerem também. A francesa ou suíça disse-me em francês, que não falava italiano. Sorri e não respondi. 







A visita ao Palácio da Bolsa é curta, cerca de meia-hora, o que é uma pena. Há tanto para ver. 

Terminada a visita vou-me arrastando lentamente para a Ribeira de Gaia para almoçar. Tenho tempo e o tempo está, como deveria ter estado o fim-de-semana todo. 

Ao meio-dia entro no Uva by Cálem para me sentar. 

Não havia Tapada do Chaves a copo, assim acabei a beber um Burmester branco. O risotto de espinafres com gambas estava bom e no final experimentei uma sobremesa para me fazer rir, ‘carpaccio’ de ananás com gelado. É a primeira vez que o faço e vai ser a última. 

Rio-me sempre que leio ‘carpaccio’ seguido do nome de uma fruta qualquer, porque ‘carpacio’ é isto aqui

Nada tem que ver com os fatiados de fruta. Enquanto que o verdadeiro ‘carpaccio’ tem semelhanças com os tons de vermelho nos quadros de Vittore Carpaccio, de quem Giuseppe Cipriani, o criador do prato era um admirador.

Quando a condessa Amalia Nani Mocenigo perguntou como se chamava o prato, Cipriani respondeu: - Carpaccio!  Terá acrescentado em pensamento, quase pela certa: - minha tonta!
Por isso, vão chamar ‘carpaccio’ ao … chamem-lhe simplesmente como alguns fazem, fruta da época fatiada.

Saio do restaurante e rumo à Ribeira do Porto pelo tabuleiro inferior da ponte D. Luiz I, atravesso o túnel da Ribeira e na saída dele, reparo na fachada da Feitoria Inglesa

Atravesso a rua e em boa hora o fiz. Tem indicação que pode ser visitada. 

Converso com a funcionária que me vende o bilhete, ela dá-me uma breve explicação e pergunto se posso fotografar. Que sim, além do rés-do-chão são mais dois pisos abertos a visita e diz-me que posso andar por todo o lado. Assim faço.

Entro e no bilhete está impressa a hora de compra, 13:36. Não está mais ninguém para visita.  

Infelizmente as portas do Paraíso estavam fechadas, eu ainda murmurei uma palavra-passe, mas não se abriram. 

Uma rolha fora e com esta temperatura acho que marchava bem.

Esta sim, foi uma verdadeira visita, sem ninguém a estorvar, sem grupo e guia para acompanhar. 

Quase ao terminar o 2º andar, aparece uma funcionária, que percebi que seria alguém responsável aqui. Já que, na conversa à entrada a senhora me tinha perguntado se eu tinha bilhete, estaria a referir-se a uma compra pela internet e se tinha combinado alguma coisa com a D._ _ _,  não fixei o nome. Que não, não tenho nada, posso comprar agora? Posso fotografar? 





E ao conversar com a responsável manifestei-lhe a minha admiração pelo que acabava de ver e expressei satisfação, por finalmente os membros da Feitoria terem aberto a casa ao público para visita. 

Estão fechados às 4ª e 5ª feiras, já que é nesses dias que os membros se reúnem ali. É por isso uma casa que está viva, que é usada e que está aberta a visita. As conversas são como as cerejas e acabamos a concordar os dois que, a visita ao Palácio da Bolsa é realmente uma pena, ser tão curta.

É este o tipo de actividade que gosto, andar sem programa, sem nada marcado, descobrir algo que ignorava e que me surpreende. O mesmo também me acontece nas leituras, nada melhor que ler alguém, que me apresenta um ponto de vista no qual eu não tinha pensado e que nessa apresentação, me relembra o muito que ignoro sobre tudo.

Vou subindo a Rua de São João, aproveito para fazer um telefone a informar a minha irmã e o meu cunhado, que na próxima visita à ‘Inbicta’ (este ‘b’ num afecta a consoante ante, ao jeito da professora que dizia às crianças: num se esqueçam que …, se escreve com b de baca) têm que vir aqui. 

Passo pelo hotel para tomar um banho, o tempo está quente e o caminhar passa a sua factura. Tirado o cheiro a cão, saio para andar de metro. Uma forma de tomar o pulso ao movimento na cidade ao fim de um dia de trabalho. Vou até à Trindade na linha amarela para ter uma ideia das ligações aqui e inverto o sentido de marcha indo até Vila d'Este. 

 

Ao regressar, saio no Jardim do Morro e vejo uma multidão a olharem para Poente. O primeiro pensamento foi: D.Sebastião deve estar a chegar. 

Camané teria cantado, eu só em pensamento o consigo fazer. 

 


Metro novamente até São Bento.

Chegado ao bar, opto por um martini em vez da loira. Foi uma boa escolha. É que passado alguns momentos, entra uma 'loira' portuguesa, pronúncia do Norte, nervosa, picareta falante ao telefone desde que entrou, sou mau avaliador de idades, não era nova nem velha, ... e a autêntica loira iria saber-me mal ao bebericá-la. 

Está nas minhas costas, mas fiquei a saber que é empregada numa agência imobiliária. Chegou lá e venceu, conseguiu vender aquilo, que todo o mundo achava impossível de vender. 

De tanto pronunciar o nome dele, fico a saber que um Vasco, está na outra ponta do fio. Era assim antigamente e no tempo dos PBX, a telefonista, podia acompanhar a conversa entre eles. Tinha um pequeno fio na mão e em cada ponta do fio havia uma cavilha, que era introduzida em dois orifícios, estabelecendo assim a ligação entre eles. "mutatis mutandis" Freud que fumava charutos, disse que: "sometimes a cigar is just a cigar" assim estaria a cavilha umbilical.

Agora as ligações prescindem do fio, andam pelas ondas, pelos fios também, mas tudo tem um ar etéreo, um ar de 'nuvem', 'cloud', apesar da forte componente de 'hardware' que o sistema tem.

Viu-se no dia do pequeno apagão de 28 de Abril de 2025, pequeno, porque o próximo vai ser maior. Palavra de vidente. Faltou a componente suja do sistema, motores, turbinas, inércia, inércia que só há no mundo mecânico e no das atitudes e comportamentos. Não há inércia nos sistemas ditos "inteligentes", aí só há a burrice que o programador humano lá introduziu.

A "loira" falou que se desunhou. A cada meia dúzia de palavras lá saía: - mas ó Vasco! tu tens que ...; ó Vasco eu sei que tu ...; eu tive aulas de canto, Vasco!; entretanto ainda atende duas "amigas" com o Vasco em espera, (as mulheres não têm amigas, acabada a ligação dizem logo delas, o que Maomé não disse do toucinho) e lá continuou o: ó Vasco! ó Vasco!. Não me apercebi que estivesse calada mais do que o tempo necessário para respirar um pouco. 

O Vasco é músico, toca umas coisas que serão parecidas com 'jazz', toca nos barcos, e ela tenta movê-lo para outras áreas e fazer dele um astro. Tu tens talento, Vasco! Eu conheço pessoas que sabem tudo sobre ... podem-te ajudar Vasco! O 'ó Vasco' é sempre pronunciado enfaticamente.

Entretanto a tranche de salmão já tinha sido comida e eu subo para o quarto. 

Amanhã quero estar a sair antes das 9. É hora de iniciar o regresso e antes chegar cedo a Campanhã, que atrasado.

Foi uma óptima estadia, soube-me a pouco e fica-me vontade de repetir. Só me falta arranjar um outro pretexto para voltar.

 fotos: _morgado - under licence: Creative Commons Attribution 4.0 International (CC-BY-4.0)
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