22/11/2025

Peregrinação I

 6ª feira, 14 de Novembro do ano da Graça de 2025. 

Última olhadela à previsão meteorológica. O comboio tem hora de saída para as 08:38 e pelas 08:15 já  estou na estação, que é a dois passos da porta do prédio. 

Sei que há perturbações, falta-me saber quantas e até onde. O descarrilamento ocorrido entre a Covilhã e o Tortosendo ainda não está resolvido, sendo assim, o comboio já não vem da Guarda, será formado aqui. O formado, é linguagem ferroviária, linguagem que não me é estranha, tendo sido criado neste ambiente. 

Constato mais uma vez que, quando saídos da rotina, os sistema borregam, ou arriam se preferirem. Durante a normalidade, uma voz feminina sai dos altifalantes: o comboio … vai dar entrada na linha nº … Agora que é precisa a voz, não a temos. 
 
Tal como os polícias que no dia-a-dia já não se vêem, então se houver algum engarrafamento monstruoso, como um que vivi na avenida de Ceuta em Lisboa, a pedir que alguém ordenasse o trânsito no cruzamento, o polícia que vi, parecia um cão deslizando ao longo das paredes em direcção à esquadra do Calvário, tentando que ninguém o visse.
 
O comboio está na linha 2, o que obriga a usar as escadas ou os elevadores. Nos écrans tudo o que está anunciado, é como se nada se passasse. A inteligência artificial, esse Boi Ápis dos tempos que correm, não consegue ver a diferença entre a Estrada da Beira e a beira da estrada. Mas tem o bom-senso de se calar. Valha-nos ao menos isso. 

Vai-se saber em cima da hora, era dispensado o ‘stress’ aos velhos e velhas que aqui estão.

Tenho 13 minutos para a ligação no Entroncamento, o comboio sai com 30 minutos de atraso. Começo a pensar que, a procissão ainda vai no adro e até aos foguetes, vou ter muita festa.
Chegado o revisor e perguntado, respondeu-me que iria saber e que já informaria. 

A modernidade tem os seus inconvenientes, mas também tem as suas vantagens. Hoje neste tipo de comboio os lugares são marcados, assim o revisor, deve ter agora uma designação do tipo “técnico de …”, mas eu ainda continuo naquela do ‘pica-bilhetes’, coisa passada, já que a bicharia que me rodeia, mostra o télélé e o pica tem outra maquineta onde tem a mesma coisa.
 
O sistema sabe que eu vou para o Porto, pouco mais sabe, já que eu comprei o bilhete em papel, não pedi desconto e paguei com dinheiro, senão sabia o tamanho das cuecas, a cor e o preço. Mesmo assim deve ter posto um asterisco, este é um possível 'terrorista', um anti-sistema, ...

O sistema decidiu, que perdido por um, perdido por mil. Ao estilo do ‘frutabol’, uma espécie de futebol inventado nas Antas no tempo do falecido Papa-netas, em que o 2º é sempre o 1º dos últimos, assim decidiu que o IC com destino a Braga, a terra dos PPP, esperaria no Entroncamento que eu e mais uns quantos chegássemos e nos instalássemos. Fico agradecido com a deferência.
 
Assim foi e lá seguimos ainda mais atrasados. Não foi uma viagem descansada, já que sendo eu um pessimista, que como digo aos poucos que me ouvem: - um pessimista é um optimista bem informado. Sei que o Diabo está sempre nos pormenores e que de um momento para o outro todas as certezas se esfumam e podemos ficar parados em nenhures, o que já não será mau, porque de pernas para o ar seria bem pior. 

Lá fomos umas vezes a galope outras a trote. 

A paisagem vai desfilando na janela e vou-me recordando dela aos poucos, as mudanças são de somenos. Não é um bom cartão de visita este que desfila ao longo da Linha do Norte. 

Aveiro

Espinho 

Gaia


O atraso foi-se alargando, chego a Porto-São Bento cerca das 14:00, a tempo de enganar a fome, já que almoçar a esta hora, me obrigaria a ter que adiar o jantar, e eu às 19:00 janto.



Feito o ‘check-in’ no hotel, instalo-me e começa aqui o fim-de-semana alargado.
As expectativas não foram goradas o que me agrada.



Chove, às vezes com um pouco de intensidade, a Ninfa que manda neste assunto não é a Claudia da depressão, tem outro nome. A chuva no entanto não me impede de me deslocar a pé. 
 
Em 1987, fiz parte de um bando de defensores da civilização ocidental e nessa qualidade andei pelo norte da Europa no mar Báltico, a provocar o Pacto de Varsóvia frente à RDA e à Polónia. Nessa altura ganhei um hábito, que copiei daquelas gentes, os ocidentais bem entendido, deixei de usar guarda-chuva. É certo que o regime pluviométrico do norte da Alemanha, nada tem que ver com o nosso, mas ficou-me o mimetismo. Olhando à minha volta, poucos são os ‘turistas’ que usam chapéus-de-chuva. 

Acabo a jantar no Guarany, um café que me recorda os cafés do antigamente, o café Central, o Arcádia, o Aviz, … tudo nomes que quase todas as cidades e vilas tinham. Empregados vestidos à antiga, não me lembro de ter visto a escória que vejo em Lisboa, tatuagens, bichas vestidas de preto, a marca distintiva delas: - se não te veste de preto, não és Chefa!
 
Gostei do cálice em que serviram o Porto que acompanhava a sobremesa, era um daqueles cálices que o Siza desenhou. Senti-me em casa.


Deitar-me relativamente cedo para os meus hábitos, amanhã quero estar na rua às 09:00, para durante a manhã ir à Brasileira tomar o pequeno-almoço e depois ir à Garrafeira Nacional, sou cliente deles e não há razão para ir a outro lado comprar, o que quero comprar.

A mudança de ares e de lugares provoca-me sempre um ‘jet-lag’ não pela diferença horária, mas por todos os pequenos nadas que me rodeiam. Daí alguma ansiedade de que me falta o tempo. Que quase nunca me falta, mas é assim que funciono. Estar antes, chegar cedo, esperar, prefiro assim. 
 
A noite custou a passar, a cama por muito que servisse à 'Princesa e a Ervilha', é diferente. Cerca da 1 da madrugada São Pedro que estava com insónias, andou a arrastar as cadeiras.  Foi um bom espectáculo de relâmpagos e trovões, infelizmente não venho munido de tripé, senão teria registado a fúria com que São Pedro os enviou. Antes assim, que descarregue tudo esta noite e amanhã me deixe em paz.

fotos: _morgado - under licence: Creative Commons Attribution 4.0 International (CC-BY-4.0)
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